Cidade: O que está por resolver


Em 2006 houve 205 vítimas mortais de acidentes com veículos de duas rodas no nosso País.

Quase metade foram vitimas dentro de localidades!

Diz o Governo que, para o ano de 2009, as metas propostas de combate à sinistralidade, concretamente no caso dos motociclos, devem obrigar a esforços que diminuam o número actual de fatalidades em 14,5%, isto é, a segurança será tolerável, desde que morram menos de 175,3 motociclistas por ano!

Devemos ficar felizes pelos 29,7 que vão escapar à carnificina… e preocupados por não sabermos de que lado da estatística é que vamos estar em 2010!

Como causas prováveis para este número específico de acidentes, e para todos os outros também, as entidades oficiais apontam apenas duas razões: o álcool e o excesso de velocidade. E prontamente abrem a caça aos prevaricadores, mandando para a rua as forças da ordem, armadas de radares, balões e terminais de Multibanco, esperando assim diminuir o drama, e esquecendo–se que há muitas outras causas e explicações para os números da sinistralidade! Pelo menos, e garantidamente, há a falta de educação dos condutores, e há a falta de condições proporcionadas pelas infra-estruturas! E relativamente à mobilidade urbana, não se houve nem uma palavra, nem se vê nenhuma acção!

Há pessoas que conduzem muito, mas muito mal mesmo! Umas por manifesta incapacidade física ou psicológica, outras por evidente falta de educação ou de respeito, outras porque simplesmente não sabem conduzir seja por falta de jeito seja por falta de ensino adequado. E serão seguramente muitas mais do que aquelas que são apanhadas em excesso de velocidade ou com álcool no sangue! São aquelas pessoas que circulam sem olhar para os espelhos, sem indicar mudanças de direcção, e que passam semáforos vermelhos a falarem ao telemóvel, mudam de faixa sem sinalizar porque vão a olhar para o GPS e são capazes de fazer manobras impensáveis em locais inimagináveis. E são essas pessoas que normalmente são responsáveis pela sinistralidade registada no segmento das duas rodas! São essas, que nem andam a duzentos porque têm medo, nem bebem por causa da medicação, e que raramente se arriscam a fazer uma viagem, os principais responsáveis pelo facto apurado em dados europeus, que constata que dois terços dos acidentes que envolvem um carro e uma moto, são sempre culpa do automobilista!

Parece que as entidades… (custa dizê-lo…) competentes, até desconfiaram disso e, apesar de aparentemente ninguém ter coragem política para enfrentar o real drama do ensino da condução neste País, foram definidas recentemente novas regras para a validade das cartas de condução que passará, a partir de 1 de Janeiro de 2008, a depender da idade do titular e da categoria para a qual este está habilitado a conduzir!

Como tal, e exemplificando apenas os titulares das cartas das categorias A e B, a validade para as licenças que possuem terminará quando estes atingirem os 50, os 60, os 65 e os 70 anos de idade, sendo que daí em diante as licenças serão válidas por apenas 2 anos! Era uma boa ideia! Realmente a idade avançada constitui um problema rodoviário! Mas logo a seguir lê-se no documento regulador:

A revalidação das cartas de condução efectua-se mediante entrega, pelos seus titulares, no serviço competente da Direcção-Geral de Viação, de exame médico, nos termos a definir em regulamento, nos seis meses que antecedem o termo da sua validade!

Bastará então, e apenas, levar um examezito médico passado vá-se lá saber por quem, tal como agora, e pagar umas taxas que entretanto devem ser aumentadas a contento, e pronto? Já qualquer pitosga, manco ou surdo, que sofra de calos ou bicos de papagaio, esteja encharcado em Xanax ou em coisa pior, pode conduzir, exactamente à mesma velocidade, hora, ou via, com os mesmos direitos que têm, por exemplo, um Pedro Lamy ou um Rui Reigoto?

Será caso para dizer: obrigadinho por nada!

O único proveito será garantidamente o proporcionado pelos custos da dita renovação, agora multiplicados, ficando a segurança rigorosamente na mesma!

Por outro lado, a rede viária, cenário de todo este drama rodoviário, é muito má e, desde o planeamento à execução, é de baixa qualidade, limitando-se apenas a acompanhar ou calar os gritos de desespero dos utilizadores ou a reagir aos negros números da sinistralidade. É normalmente fruto de campanhas eleitorais avulsas, baseada em rotundas, em tapetes asfálticos de baixa qualidade e semáforos hilariantes. Culmina geralmente sempre com uma aplicação descabida de rails de protecção.

As nossas ruas e estradas têm geralmente um piso em muito mau estado, a sua reparação é geralmente mal feita, isenta de programação e efectuada em condições, horas e dias completamente desfasados do que seria de esperar numa sociedade civilizada.

A sinalização também é muito má! Seja a horizontal (as pinturas no piso) que é irresponsável (quem anda de moto sabe a que me refiro), seja a sinalização vertical, ilógica, confusa e quase impensada, sendo por isso castradora da fluidez do trânsito, distractiva e quase sempre incompleta e inconsistente.


No piso, além das pinturas, temos toda a espécie de detritos, temos gasóleo derramado dos depósitos dos pesados, temos os remendos no alcatrão, as tampas de esgoto, os buracos, os malditos tapa-rachas (os famosos betuminosos com polímeros) as escorregadias juntas de dilatação das pontes e viadutos (as Via-Joint), temos as lombas de abrandamento, os pilaretes, os blocos de cimento e os modernos em plástico, temos os carris de eléctrico desactivados que resistem no meio de buracos.


Quando chove, temos sarjetas entupidas que provocam piscinas, temos amplas praças e rotundas sem escoamento, e verdadeiros riachos que atravessam auto-estradas e vias rápidas. Quando está calor, temos as regas dos jardins a transbordar e a criarem verdadeiras armadilhas. A atenção de quem conduz, sobretudo um veículo de duas rodas, é permanentemente solicitada para descobrir estas armadilhas, e pouco tempo sobra para se poder controlar o trânsito.

E a mobilidade?

Apesar das investidas para diminuir o consumo de combustíveis fósseis, o problema da mobilidade e consequente segurança, não se vai resolver seguramente com nenhum combustível alternativo. As cidades, e concretamente as portuguesas, não nasceram a pensar nos transportes! Não há espaço, nem há acessos suficientes.

Os transportes públicos são olhados com desdém por quem deles não necessita, e com desespero por quem deles depende! Arrastam-se em vias congestionadas, que reduzem substancialmente a sua eficácia e rentabilidade.

Em algumas cidades europeias avança-se com a implementação de portagens, à semelhança do que já acontece em Londres e promove-se a utilização de transportes alternativos, onde as duas rodas têm já um papel muito importante, quer pelas suas características físicas, quer mecânicas, sobretudo pela compatibilidade com os espaços disponíveis, pela menor emissão de gases poluentes e pela grande mobilidade que proporcionam.

A Europa está a implementar a directiva comunitária (91/439/CEE) que permite o acesso automático à condução de motociclos com uma cilindrada até aos 125 cc. para os detentores de carta de ligeiros. Em Espanha, por exemplo, com esta medida passou-se das 37.940 unidades deste tipo de motociclos, vendidas em 2004, para 105.586 unidades em 2006.

Um aumento de 278%.

Num estudo também realizado em Madrid, concluiu-se que um aumento de 6% na quantidade de motociclos a circular, iria representar uma diminuição de 100.000 horas de trânsito para os restantes utilizadores de automóvel e autocarros. Em outros estudos realizados também se aponta para a diminuição da sinistralidade devido à adopção desta mesma directiva.

Todas as grandes cidades da Europa estão a adoptar os motociclos e a criar condições de circulação, nomeadamente locais de estacionamento apropriados, vias reservadas a motociclos e a permitir a utilização das faixas de Bus pelos seus condutores.

E quais são as nossas medidas governamentais para combater estes problemas?

Bom, sabemos que a adopção da directiva comunitária (91/439/CEE) anda pelos corredores da nossa administração pública, e parece não haver coragem para proceder à sua implementação! Parece que alguém tem medo de que possa haver um aumento da sinistralidade, que não seria nada bom para a imagem de nenhum político.

E as edilidades, que deviam estar mais preocupadas ainda com a questão da mobilidade, parecem autistas, e temos por mau exemplo o caso do edil lisboeta que, antes de ganhar as eleições disse à MOTOCICLISMO que “estava especificamente previsto, dentro dos constrangimentos financeiros que são conhecidos, que sejam criadas ou incentivadas soluções para as necessidades próprias do estacionamento de veículos de duas rodas”.

O que é certo é que, no presente, os motociclos e os ciclomotores deixaram de poder estacionar em cima dos passeios, e como já estavam proibidos de estacionar nos lugares sob a tutela da EMEL, ficaram reduzidos à possibilidade de estacionar nos lugares específicos para motociclos que, além de serem poucos, muito poucos mesmo, ainda competem com os automóveis pelo referido espaço, já que este, por não estar preparado para o efeito, permite que os automóveis ou lhe bloqueiem o acesso ou nele entrem e estacionem, sendo que então o cúmulo é que nem podem ser multados pela EMEL, a quem o espaço não pertence, nem pela PSP, que se demitiu de tal responsabilidade e tarefa quando a empresa pública municipal assumiu esse tipo de controlo.

Sobre a possibilidade de circulação nos corredores de BUS, ninguém sabe bem explicar nem porque sim nem porque não; vias reservadas a motociclos não se conhece nenhuma; acessibilidades específicas nas portagens para os motociclos também não existem, e poucos são os parques de estacionamento que têm condições para acolher veículos de duas rodas.
A segurança não tem preço, e está seriamente comprometida, e a mobilidade é um conceito afastado das preocupações de quem governa.


Nós e a Europa

Antes de começar a escrever estas linhas, empanturrei-me com as tenebrosas estatísticas da sinistralidade rodoviária nacional! Depois consultei o site: http://ec.europa.eu/transport/roadsafety/index_en.htm
Dele tirei as frases que transcrevo abaixo para poder ilustrar a forma como estes assuntos são tratados pela EU, comparativamente com a forma como são tratados em território luso.

Relativamente à sinistralidade:

Cada Cidadão Europeu tem o direito a viver e trabalhar em segurança. Por isso, sempre que esteja a andar a pé ou de bicicleta, a conduzir um veículo de duas rodas, um automóvel ou um camião, deverá fazê-lo com um risco mínimo de se magoar ou morrer. Como tal, todos os demais utilizadores da rede viária, não deverão sofrer acidentes pela sua própria participação no trânsito.

Relativamente às infra-estruturas:

As infra-estruturas rodoviárias podem contribuir significativamente para reduzir a sinistralidade. A “estrada intuitiva” deve influenciar e guiar o comportamento dos condutores, e a “berma condescendente” (tradução para forgiving roadside), conceito utilizado para descrever uma série de medidas destinadas a reduzir a severidade das consequências de eventuais despistes, que deve proporcionar um ambiente que não contenha objectos nos quais um veiculo desgovernado possa embater, e que permita também a possibilidade de o condutor conseguir eventualmente recuperar o controlo do seu veículo, evitando acidentes e prejuízos. A responsabilidade de construir e manter vias seguras é dos estados membros, das administrações das estradas e dos gestores das infra-estruturas.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s