Em busca do “espírito motard”

É frequente atribuir-se a alguém o estatuto de “Verdadeiro Motard”. Alguém que respeita o “Espírito Motard” e que defende a causa de uma minoria específica, que tem pelas duas rodas um carinho e uma atracção especial.

Para encontrar uma definição para este autêntico “cliché” do mundo motociclista, comecei pelo melhor amigo do curioso: O Google. Digitei as duas palavras “espírito motard” e o resultado agigantou-se (literalmente) com Gigabytes de resultados.

Primeiro os links dos fóruns de discussão virtuais: grandes elocuções, grandes lições, pensamentos. Muitos debates, outros tantos insultos e lições de moral. Muitas, imensas, rores de prelecções e opiniões de quem se julga ou sente na posse da razão. Questões fracturantes, ou de mera índole retórica, como por exemplo a decadência do hábito do cumprimento “cívico e cordial” entre os motociclistas. Ou a transformação em mero mito, das façanhas do companheiro motard que, no meio da frustração de uma avaria, queda ou simples falta de gasolina, pára e nos dá uma “mãozinha”, uma boleia ou um cigarro seco. Sobretudo uma palavra de conforto.

Tudo temas de uma inspiração profunda para quem realmente neles acredita e neles encontra a essência do tão questionado “Espírito Motard”.

De seguida, a busca apontou as agendas digitais, os blogues, os sites e novamente mais fóruns de discussão, todos eles a transcrever excertos de propaganda, publicidade, críticas ou simples conteúdo informativo, de relatos na própria ou na terceira pessoa, sobre “concentrações motards, motares ou motardes” todas elas, reivindicando para si a presença “in loco” do “verdadeiro espírito motard”.

Em continuação, a busca foi revelando factos dispersos, acabando em eras remotas, naqueles tempos em que as motos eram efectivamente uma coisa de machos. De jovens mancebos cheios de adrenalina, de testosterona, a cheirar a lubrificantes e gasolina. Pessoal com destreza suficiente para dar ao “quick” e, sem partir uma perna com o ricochete, acordar aqueles motores preguiçosos, incontinentes de fluidos, dessincronizados de ignição, fumarentos e barulhentos. Homens que tinham que vencer teimas e manias e manhas, de mecanismos e dispositivos que necessitavam manutenção constante, de muito engenho, e de sorte mais ainda.

Depois apareceram os relatos de viagens, de longas voltas ao mundo, de travessias de continentes, sofridas, difíceis, mas muito gratificantes para os seus protagonistas, uma espécie de ermitãs dos tempos modernos, enclausurados no seu capacete, meditando sob o mantra dos escapes, enfrentando privações e desafios quase sobre humanos.

Também na busca apareceram dados e factos sobre as tribos, os grupos, verdadeiras hordas de motociclistas, imbuídos da sua própria razão, realidade e estilo. Comunidades organizadas e hierarquizadas que fizeram das motos a sua religião, ou melhor, a sua crença, o seu único objectivo de vida, a sua única ambição. Comunidades normalmente lideradas por quem, de entre todos, fosse o mais inabalável, o mais convencido, destemido, esclarecido, ou, por vezes até, apenas o mais bem ou malparecido. Uma questão de estilo, e de modos, e sem importar como, de merecer dos demais o fundamental e inquestionável respeito. O tal “Respect!”

Mas apesar de tudo, a busca não conseguiu revelar se apenas tem possuir espírito motard quem, por exemplo, participar em concentrações, ou usar marcas tribais, ou for membro de um grupo. E quem gostar apenas de motocross é mais ou menos motard do que quem gosta de fazer 1000 km por dia numa boa turística? E quem nunca andou em pista, num verdadeiro autódromo, e não deslizou o joelho no chão, não é um verdadeiro motard?

Publicado na edição nº 234 da Revista MOTOCICLISMO

One thought on “Em busca do “espírito motard”

  1. Pois… ora aí está uma pergunta q me assola desde q entrei nas lides! …q raio é esse tal de “espírito motard” q mais soa a entidade do além ou a rotulagem pretenciosa, q nem aquele “r” das etiquetas q assegura a legitimidade de 1 determinada marca… Como se andar de mota com saber e gozo na coisa, estivesse dependente da benção do dito “espirito” q te regista como sendo um dos “brothers” e te desse o direito a tal “…sim! Tu agora já és um motard… tens espirito pá coisa!”
    Mas para andar de carro tb é preciso espirito para a coisa?
    Outro dos problemas é a incoerencia com que se apregoa uma coisa e se actua de forma inversa.. de muita gente que conheço, e q tanto se auto-rotula de motard (chamando a si a perfeição sob todas as qualidade acima descritas!) já assisti ao exercicio perfeito do “anti-espirito-motard”.
    Estranho mundo este do tal “espirito”… eu cá prefiro andar de mota, no mal que sei e no pouco que posso, conseguir sair da garagem viva e voltar intacta é uma aventura, curtir a conquista que foi ultrapassar medos e honrar a memória de 1 amigo perdido sobre 2 rodas, que com espirito ou sem ele, andar de mota dá um gozo bestial! 😉

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