Buell XB-12 SS



É uma 600?  Tem trabalhar de Harley…? Olha, é transparente!  Estes foram os comentários que mais ouvi nos dias em que testei esta Buell. Era raro o local onde a parasse em que não fosse abordado por transeuntes, ou por outros motociclistas.

O que é certo é que também eu gostei da pequena Buell, logo desde que me sentei nela pela primeira vez! Parecia ter tudo no sítio certo. Assim que comecei a andar, senti que tudo encaixava como um “luva”, sendo muito suave no arranque e muito intuitiva na direcção. Mas o que mais me agradou foi a sensação de solidez que todo o conjunto transmite.

Fora a vibração produzida pelo V-Twin ao ralenti, que faz abanar sobretudo o guiador e os espelhos, e que quase desaparece mal se sobe o regime do motor e se começa a andar, o conforto é um dos pontos fortes deste modelo, que oferece uma posição de condução muito ergonómica, um banco confortável, uma suspensão que nos transmite a sensação de flutuar, a ausência da vibração da corrente de elos (já que dispõem de transmissão por correia) e uma direcção extremamente precisa, suficientemente rápida e de fácil “leitura”.

O motor

O Thunderstorm V-Twin de 1203 cc arrefecido a ar/óleo, debita potência de uma forma muito consistente desde ligeiramente abaixo das 2000 r.p.m. até ao “red line” muito perto das 7.000 r.p.m. A injecção electrónica (com mapeamento 3D) não me pareceu tão bem “afinada” quanto a de outros modelos da gama que já tive oportunidade de experimentar, mas creio que o facto se deve a uma preocupação com o consumo que acabou por se revelar bastante comedido, apresentando uns razoáveis 6,35 lt./100 Km em trajecto misto.

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Desculpa-se, assim, a difícil tarefa de arrancar com o motor “frio”, situação que tem que ser ultrapassada com um regime de rotação excessivamente elevado e uma grande dose de “ponto de embraiagem” para não vermos a “orquestra” calar-se súbita e frequentemente debaixo de nós. Depois de quente, a forma como se sente a potência do motor é bastante agradável, parecendo sempre menos do que aquela que realmente está a ser debitada, e só mesmo em comparação directa (em passeio com outras motos e nos arranques dos semáforos) é que nos damos conta de como as outras ficam (bem) lá para trás!

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Mesmo com chuva, rodar o punho com alguma violência é tarefa que não causa sobressaltos já que a potência é muito bem servida ao pneu traseiro, proporcionando uma agradável sensação de segurança sem escorregadelas imprevistas. A caixa de cinco velocidades traduz-se na prática numa mais valia, já que diminui substancialmente a necessidade de ter que engrenar mudanças de velocidade, bastando normalmente “meter uma abaixo” para sairmos rapidamente do lugar onde estamos.

A ciclística

Esta Buell foi uma agradável surpresa em termos de ciclística. Como as suas dimensões pareciam ter sido feitas à minha medida, foi muito interessante poder dedicar imediatamente toda a atenção às capacidades desta moto. Muito equilibrada e leve na manobra, é na entrada em curva que o seu comportamento se apresenta muito bom, e apesar de apresentar uma pequena tendência para “cair” para o centro da curva, a intervenção do acelerador corrige o efeito de forma muito eficaz, parecendo que ambas as acções se completam para que possamos desfrutar de sensações muito interessantes sem estarmos sujeitos a percalços desagradáveis. A travagem da roda dianteira, apesar de não ser muito incisiva no início, é potente o suficiente para nos manter “descansados” mesmo em travagens de emergência, e sobretudo com piso molhado.

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Os pneus Pirelli Diablo são um valioso brinde, já que permitem explorar o conjunto sem qualquer sobressalto, proporcionando aderência suficiente até mesmo em situações de mau piso, seja em curva, mesmo sujeitos a acelerações mais temporãs, seja em travagem, onde, em conjunto com o fantástico desempenho do travão dianteiro e a eficácia da forquilha Showa de 43 mm invertida e completamente regulável, se traduz numa segurança quase desconcertante. Na roda traseira, a travagem é muito suave e doseável sendo uma óptima aliada na correcção de trajectórias, aumentando ainda mais a confiança com que podemos entrar em curva. Não fosse um ligeiro afundamento da frente, em travagens mais incisivas, e o reduzido ângulo de direcção que pode causar surpresas ao manobrar a baixa velocidade, poder-se-ia dizer que este conjunto não tinha defeitos.

Em geral

Esteticamente todo o conjunto é muito agradável à vista, sobressaindo as dimensões do V2, a “ausência” de escapes, a originalidade do travão radial e a capa que substitui o depósito da gasolina, em transparente, deixando à vista o controlo da Injecção e mais alguns pormenores do motor!

Tratando-se de uma “naked” não podemos considerar negativa a falta de protecção aerodinâmica subjacente ao conceito, mas tendo em conta outras descarenadas à venda no nosso mercado, diria que o frontal da Lightning oferece mais protecção do que aquela que se podia esperar à partida, já que é perfeitamente possível circular a velocidades nada recomendáveis por períodos relativamente longos. O quadro largo e o motor grande oferecem uma boa protecção complementar, ficando apenas as canelas e os pés à mercê do vento e das restantes condições climatéricas.

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Destinada a uma utilização “all rounder”, a Lightning, pela sua exclusividade, dificilmente vai estar sujeita a serviços de estafetagem ou a utilizações intensivas no meio do trânsito, pelo que os principais defeitos não irão ser tão facilmente identificados pelos utilizadores. Mas que os há…
No pára-arranca encontramos o primeiro grande defeito: a embraiagem por cabo, que permite um controlo bastante preciso do débito da potência do motor, sobretudo em manobra, mas que necessita de muita pressão na manete para ser operada, pelo que se tivermos muitos minutos de congestionamento pela frente, a nossa mão esquerda vai começar a aquecer até que os tendões fiquem “em brasa”.
E já que estamos a falar de calor, temos que ter em atenção a temperatura emanada pelo motor e pelo escape, (sobretudo a curva do tubo que sai do cilindro traseiro e que passa mesmo debaixo do banco, que apesar de ser refrigerada por uma ventoinha dedicada, após alguns minutos em trânsito lento, não demorou a fazer-se sentir, deixando à imaginação como será no meio de trânsito mais compacto, nos quentes dias de Julho…

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Mas como não existem motos perfeitas, pode-se dizer que o balanço é muito positivo, e quem pretender uma moto para deslocações em estrada aberta ou incursões pela cidade em dias de pouco movimento, pode encontrar na Buell XB12SS Lightning uma companheira quase perfeita, cheia de charme, tecnologicamente apaixonante, segura e, sobretudo, exclusiva.

 

Publicado na edição nº  215 da Revista MOTOCICLISMO

fotos: Pedro Lopes / Motorpress

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